Por que (escolhi) psicanálise?

Conheci a psicanálise a partir da minha irmã. Ela cursava graduação em psicologia e eu ainda era adolescente. Ela lia alguns textos para mim, quando ela tinha que estudar e estava cansada. Eu saia com a minha irmã e os amigos dela, em sua maioria, psicanalistas – nessa época eu achava que todo psicólogo era psicanalista. Dos papos mais leves aos mais complexos, muitos passavam pela psicanálise. Eu não entendia muito no início, mas como sempre fui comunicativa, arriscava opinar e assim fui participando das conversas. Algumas pessoas achavam que eu era da área, outras tinham certeza. Menos eu!

Algum tempo depois fui trilhando minha vida profissional e realmente não cogitava ser psicanalista. Até porque, apesar da minha identificação, eu também achava que todo psicanalista era psicólogo e nunca me vi cursando psicologia. Talvez porque minhas inspirações profissionais fossem meu pai (bancário) e meu irmão (contador e empresário).

Na adolescência ainda, por volta dos meus 16 anos, fui a uma psicóloga pela primeira vez para fazer um teste vocacional. A partir daí, continuei fazendo terapia e depois conheci a análise como paciente. Tive experiências variadas e até absurdas (preciso de outro post para contar) até encontrar uma psicanalista onde a transferência aconteceu. E lá eu permaneci 4 anos como analisante.

Profissionalmente, depois de alguns estágios, fui trabalhar em uma financeira e em seguida no maior banco privado da época. A realidade profissional não foi fácil pra mim. Detestei o ambiente e as relações de trabalho, mesmo tendo afeto por muitos colegas. O que mais valia à pena eram os encontros fora do trabalho, mas o dia a dia no banco era “selvagem”. Depois de um tempo, senti um enorme vazio no trabalho e com muita dificuldade para me permitir, saí do banco.

Nessa época eu havia me afastado da análise por questões (criadas por mim) de tempo e de objetivo. Na crise, voltei para a minha analista que tinha um perfil bem rígido. Confesso que foi muito difícil dar conta das questões que me fizeram quase adoecer. Mas foi em análise que descobri que a minha grande questão girava e ainda gira em torno do trabalho.

Saí novamente da minha analista pois estava bem difícil resolver as minhas questões e acabei me sabotando. Conheci a Gestalt através de uma amiga e cunhada e fui ser paciente de uma amiga dela. Gostei muito da experiência, pois ela me ajudou a perceber ainda mais que a decisão sobre os meus planos tinha que vir de mim. E com algumas sessões, recebi alta.

Consegui sair do banco. Essa foi uma das decisões mais difíceis da minha vida até então, pois envolvia mais do que questões financeiras. Depois, em análise, descobri que essa dificuldade envolvia a minha relação com o meu pai, com o que eu imaginava do meu futuro e principalmente, com o que eu não conseguia enxergar em mim e para o meu futuro.

Na minha graduação, estudei o sofrimento do trabalho bancário, enquanto eu ainda trabalhava no banco. Isso também foi definidor para eu ter conseguido sair desse emprego. Poucos meses depois de sair da empresa, decidi fazer mestrado e desenvolver mais o tema do sofrimento laboral. Eu não sabia, mas eu já estudava psicanálise desde essa época.

Durante o mestrado, eu participava de grupos de estudo de psicanálise e estudava Freud e Lacan para a dissertação e muitas vezes por curiosidade mesmo. Fazia isso sem pretensões. Foi então que eu senti que minhas questões internas só aumentavam. Ainda durante o mestrado engravidei e quando terminei e poderia trabalhar como professora de ensino superior, me deparei com outra realidade: os desafios do trabalho pós-maternidade. E novamente me questionei sobre as minhas escolhas profissionais e o meu desejo.

O desejo de estudar psicanálise já morava em mim. Isso eu não podia negar. A importância da minha análise era outro fato. Nesse percurso, eu já estava a cerca de 4 anos com a minha 2a analista (que deu certo). Mas ser psicanalista era tão inimaginável pra mim! E aí morava a questão: ser psicanalista parecia algo extremamente difícil, distante e inalcançável.

Com (muito) pudor, eu comecei a falar sobre isso em análise e a minha analista me emprestou um texto do Freud que falava da formação do analista. Esse foi um fato de grande relevância. Mais algum tempo de estudo, participando de uma Escola de Formação e eu ainda esbarrava na minha dificuldade de me autorizar ao ofício de psicanalista (farei outro post sobre a formação).

Mais uma gestação e mais muitas questões para serem acolhidas. Foi nessa época, onde meu corpo e a minha vida pareciam se transformar novamente, que percebi que a psicanálise era algo que estava comigo, por minha escolha (mesmo que inconsciente), há muitos anos. Ser psicanalista era um desejo tão forte que assustava. Lutei contra as limitações que eu me punha, mas esbarrei em algo que parecia intransponível. Eu só sabia que precisava mudar de analista. Foram 6 anos de transferência com a minha 2a analista. Para mim, 6 anos de uma relação que remete ao amor. Mas ela deu o que tinha que dar. Coloquei o desejo de ser analista na mochila e guardei no armário na esperança de que ele ficasse quietinho.

No mês seguinte eu fui para outro analista e lá, fiquei algumas sessões sem falar do meu desejo. Mas acontece que essa questão voltou a bater na porta rápido demais. Pronto! Foi a partir de então que eu não larguei-a mais. Por isso tudo (escolhi) a Psicanálise.

Como eu sei que a minha escolha é a Psicanálise? Porque ela faz todo sentido pra mim. Como um amigo que depois de alguns anos, você percebe que ele é seu companheiro de vida, um grande amor. Agora é cuidar, regar, colher, plantar… eternamente, como um psicanalista que precisa estar em formação continuamente.

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