A formação do analista para Freud – Parte I: análise pessoal

Sigmund Freud não só criou a psicanálise, como também se preocupou com a formação dos analistas. Em seu texto de 1919, Sobre o ensino da psicanálise nas universidades, Freud estabeleceu o tripé para a formação: análise pessoal, ensino teórico e supervisão. Parece simples. E pode ser.

Existem muitos textos acerca desse tripé e, particularmente, para quem tiver interesse, sugiro ler a fonte originária, ou seja, o próprio Freud. Para quem nunca o fez, adianto que os textos de Freud são sim complexos do ponto de vista dos assuntos abordados. Mas ele escreve fácil. Já ganhou até prêmio literário. De toda forma, este blog não é acadêmico, assim como não era acadêmica a proposta de Freud para a formação psicanalítica.

Ah! Então qualquer um pode ser psicanalista? Entendo que sim. Desde que tenha ética. Passei a aceitar a minha formação quando entendi que Psicanálise é ética. Alguém importante já deve ter escrito sobre isso. Mas o importante para mim é que eu internalizei isso e só assim passei a aceitar e respeitar a minha formação.

Análise pessoal

Como assim Psicanálise é ética? Inicialmente, para a análise pessoal, além de coragem de falar e ouvir de si sobre as próprias questões, é preciso ética. Ética com você mesmo. Ética de continuar a análise mesmo naqueles momentos mais difíceis. Aprendi cedo que quando menos eu queria ir para a minha análise, mais eu deveria ir, pois a resistência geralmente tem um motivo inconsciente.

Freud apontou que o analista é formado na própria análise: “Mas onde e como pode o pobre infeliz adquirir as qualificações ideais de que necessitará em sua profissão? A resposta é: na análise de si mesmo, com a qual começa sua preparação para a futura atividade.” (Freud, 1937/1969, pág. 282).

Na prática, não é comum as pessoas procurarem um psicanalista. Muitas não sabem nem o que é. Pelo menos na realidade que eu conheço. No meu caso, “caí de pára-quedas” na clínica com um analista e permaneci porque me identifiquei (como escrevi no meu post Por que (escolhi) a Psicanálise?). Geralmente as pessoas procuram um psicólogo ou psiquiatra, que são as duas áreas com mais psicanalistas. Mas isso é cultural. Sinto uma mudança leve, mas positiva.

Para mim, deve procurar um psicanalista todo aquele que tem alguma questão pessoal que perturba o dia a dia. Ah, Tallita, então questões profissionais não são relevantes? Sim, profissionalmente. E se essa questão profissional atrapalha sua vida pessoal, ela não é mais uma questão meramente vinculada ao trabalho. Faz sentido?

Então todo mundo deve procurar um psicanalista? Não. Eu mesma conheço algumas pessoas que dizem que não tem questões internas que justifiquem a busca de uma clínica. Ou mesmo que quando algo o perturba, tem uma forma de resolver, seja correndo, rezando, conversando com os amigos, etc.

Para aqueles que, como eu, precisam de mais, precisam falar e ser ouvidos, sem amarras, sem pudor, sem preocupação, sugiro procurar um psicanalista. Ah! E é o paciente que deve procurar o psicanalista para que a relação de transferência ocorra. Diferente de psicólogos, por exemplos, os psicanalistas não costumam (ou pelo menos não deveriam) fazer propaganda divulgando a clínica, em busca de pacientes. Mas esse é assunto para outro post!

Eu sugiro perguntar, pesquisar, conhecer alguns psicanalistas e quando escolher um, ir pelo menos para quatro, cinco sessões, antes de trocar de analista, caso não esteja gostando. A relação transferencial nem sempre se dá de imediato. E mesmo que ocorra, ela vai se fortalecendo aos poucos.

Falar pode até ser fácil para alguns. Mas nem sempre quem fala está se permitindo se ouvir. É um processo. É um aprendizado. Um desafio. Não existe solução imediata, infelizmente. Mas pelo menos existe um caminho, uma saída. A saída é a busca por ela.

Na última entrevista rara de Freud, concedida a George Viereck, e, 1926, publicada no texto O valor da vida, de 1989, o pai da psicanálise reforçou a importância da análise pessoal do psicanalista. “O psicanalista é como um bode expiatório dos hebreus. Os outros descarregam seus pecados sobre ele.” (pág 122). Em seguida, o repórter perguntou se a psicanálise aceita e perdoa tudo, como forma de caridade. Freud esbraveja que não! “Tudo compreender não é tudo perdoar. A psicanálise nos ensina não apenas o que podemos suportar, mas também o que devemos evitar.

Dessa forma, digo que a análise pessoal é um caminho da busca de compreender o que for possível e evitar o que for impossível aceitar. Faz sentido pra você, nobre leitor?

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2 comentários em “A formação do analista para Freud – Parte I: análise pessoal

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